terça-feira, 16 de outubro de 2012

Carta que nunca será entregue. 1ª edição

“Será que seria certo começar uma carta dizendo como o tempo está lá fora? Não sei bem, fico em dúvida, mas acho que vou arriscar. O tempo lá fora está quente, úmido, e aqui dentro tenho apenas uma necessidade: você e um pouco de café quente pra acompanhar o vazio frio da minha alma. Não sei bem também como as coisas começaram a acontecer, mas desde que começaram não tenho vontade de dormir, o peito parece ser empurrado contra a parede constantemente, meu psicológico está perturbado e eu não aguento mais sentir o coração palpitando como se fosse voar. Não preciso nem ressaltar o fato da minha alimentação ter sido reduzida por completo, nem dos quilos excessivos que me deixar doer por você está me tirando. Olha, eu não sei se irei enviar esta carta até você, nem se vou deixar me permitir sentir tudo isso que me parece uma navalha fatiando meu coração, mas sei que se chegar a acontecer um ou o outro, nãome procure. Ando muito sem foco, ando muito sem vontade própria, sei que se pudesse me apoderar de alguma coisa ( se até disso eu tivesse vontade ), seria de voltar a ser como eu era antes. Gostar de você até que é algo bom, doce, mas quando está perto. Quando está longe, eu prefiro parar de dar começos e reinícios a fins sem solução. Volto a ressaltar que o tempo lá fora está quente, talvez seja o que me mantenha vivo. Já imaginou se não houvesse andorinhas fazendo verão e a chuva começasse a soar? Com certeza seria uma bela história do “era uma vez”. É tão destrutivo pensar em todas essas coisas, talvez até mesmo escrever esta carta que por falta de coragem ( ou excesso de dor ), nunca será entregue. No fundo da garrafa térmica do café, eu acho que tenho esperança. Não sei nem do quê exatamente, mas é como se fosse esperança de que algo bom pudesse acontecer. E isso não inclui você voltar pra mim ( ou talvez só inclua isso). Olho para as nossas alianças, percebo que nem elas nos impediram de irmos para seus respectivos lugares. Que coisa mais trágica é estabelecer um laço mau feito, com falhas, com riscos, que a gente até pensa que vai virar nó, mas que se desfaz. Que até mesmo me desfaz. Quero terminar de molhar a bolacha seca no café sem recapitular memórias agonizantes, e quero conseguir fazer isso sentindo a mesma vontade inicial de comer. É impossível. Ah! Mudando um pouco de assunto: quero lembrar que a toalha com seu nome que você esqueceu em cima do criado-mudo do meu quarto, ainda está no mesmo lugar, e que a escova de dente rosa que ficava ao lado da minha, também permanece no mesmo lugar. Comprei um perfume novo, mas ainda prefiro usar o antigo. Lembro que você gostava do cheiro amadeirado e suave que ficava depois de algum tempo na pele. Não mudei muito a organização das coisas, nem tampouco apaguei o que você escreveu na parede do meu quarto com grafite ponta 0.7. O que eu mudei drasticamente foi o fato de preencher excessivamente a vontade do meu pulmão por nicotina de Lucky Strike e de vez enquanto dou um susto no meu fígado substituindo álcool por água. É necessário não se deixar morrer, e eu estou lutando, está vendo? Acho que você sorriria e diria o quanto se sente uma pessoa orgulhosa de mim por isso. Obrigada. Estou vivendo um tanto confinado dentro de casa. Facebook, filmes tristes, café, cigarros, comida requentada da semana passada e que eu ainda deixo no prato. É a minha rotina. Levanto um pouco tarde ( isso se eu conseguir levantar. É a minha primeira luta comigo mesmo ), pego o jornal debaixo da porta, bocejo levemente. Com um triste olhar preenchido de algumas pitadas de preguiça, encaro a louça suja, e como sempre, deixo pra lá. Café da manhã? Que seja doritos. Almoço? É hora do jantar. Os dias passam, os programas televisivos passam, as notícias do facebook mudam, e a porcaria da minha vida continua sendo levada pela privada. Ah, não, esqueci de dizer que pela privada não, entupiu semana passada. Preciso de cuidado, de me cuidar, mas não sei não, é algo que demora, que sucumbe a coragem, um dia eu acho que consigo. Lembra do Jorge? Aquele que te apresentei no jantar da empresa? Ele quem me visita às vezes e que conversa comigo sobre a política do trabalho novo que conseguiu. Vai se casar daqui há três meses. Mandarei felicitações, direi que foi você quem as mandou. Tenho andado muito solitário, e acho que esse é um dos maiores motivos para escrever algo que nem sei se irei entregar. Meu coração está sendo empurrado contra parede novamente. Grito socorro abafadamente, até que desisto e deixo logo acontecer. Essa é a parte em que eu me rendo e digo o quanto você me dói excessiva e compulsivamente. É a parte em que dificulta a minha vontade de levantar pela manhã, sabendo que os dias sem você são mais difíceis, e é a parte que mais me dói por saber que um dia vai passar, que eu vou deixar de te amar. Eu não queria precisar deixar de te amar, eu só precisava que você estivesse aqui, mesmo que ausente, mas ainda assim, estivesse. Olho pro relógio ansiosamente, e eu devo confessar que a esperança de receber uma ligação me domina. Já tem três meses desde que você se foi, e ainda assim, eu te espero. O relógio com o seu “tic” e com o seu “tac” vai me fazer conseguir, mesmo não estando ao meu favor, ele irá. Encontrarei um sentido para minha existência, ou quem sabe, encontrarei o sentido de comer doritos no café da manhã… [ ] Beijos, com amor… Eu que ainda espero por você.” Isllane Letícia Rodrigues Barboza

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Mundo Leitor

É um mundo de palavras
rimadas ou não
pensadas, faladas
escondidas no coração

Mundo que é mágico
faz ser real a imaginação
Mundo que sonhei
E cantei numa canção

Mundo que é capaz
de me tirar daqui
Mundo que me dá paz
Pra dentro de mim posso fugir

Neste mundo me encontro
E as palavras me fazem um favor
Aqui eu sempre viverei
Aqui é o meu Mundo Leitor!


Autora: Dâmaris Góes

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